RAZÕES PARA SE BUSCAR PSICOTERAPIA



Nossa cultura costuma considerar qualquer solicitação de ajuda como débil manifestação de quem apresenta absoluta incapacidade de resolver os seus próprios problemas. Tal atitude cultural tem raízes históricas alicerçada na extrema competitividade que vigora em todos os níveis de nossa sociedade pós-moderna, contexto este, em que o pedido de ajuda se assemelha ao reconhecimento da debilidade e da incapacidade de resolver problemas, assim como parece dar abertura de possibilidades para o ataque de Outro, seja este quem for.


Como resultado, o sujeito se retrai, esmagado duplamente pelos problemas vividos por ele e pelo sentimento aniquilador de isolamento. Não tendo com quem repartir suas dúvidas e angústias, muitas vezes o sujeito gira em círculos em torno do problema, sem descobrir solução ou, ao menos, alívio temporário.

Todos nós mantemos, entretanto, alguma forma de relação de ajuda para os nossos problemas pessoais. Pessoas com quem temos mais afinidade, amigos ou parentes, surgem em nossa vida e oferecem um ombro acolhedor. No entanto, um amigo que ajuda a outro termina por também expor seus problemas e também solicitar ajuda de uma ou de outra forma. Troca-se ajuda.


A relação psicoterapêutica de ajuda nada mais é senão um tipo particular entre as diversas relações de ajuda existentes. O que marca uma diferença fundamental entre esta e outras relações de ajuda é o fato de que o sujeito que a solicita é sempre o único e o principal objeto de interesse, não se discutindo, nesta relação, os eventuais problemas pessoais do terapeuta (ou analista). Desta forma, sempre são discutidos, analisados e investigados apenas e tão-somente os motivos e as queixas que o paciente traz à relação psicoterapêutica.

O paciente que busca ajuda psicoterapêutica por vontade própria, detém atributos fundamentais para tal, a saber, perseverança e força de vontade, por residir nelas a potência maior para remover obstáculos, solucionando os problemas existentes. A direção do movimento no processo terapêutico é dada pelo próprio paciente que é ciente daquilo que sofre, em que direção se deve ir, quais o problemas que são cruciais, que experiências foram profundamente recalcadas.
 
Crer na capacidade de auto-realização e de auto-recuperação do paciente, no sentido deste poder solucionar adequadamente os seus conflitos, desde que auxiliado por um psicólogo ou psicanalista, é fundamental para dar ao paciente, desde o primeiro momento, o direito de “se sentir capaz”, sentimento este que lhe foi roubado, talvez por toda a sua vida.


Cabe ao psicanalista utilizar toda a sua capacitação técnica e o seu conhecimento das características e possibilidades humanas para empreender conjuntamente com o paciente, a busca de melhores alternativas para a solução de seus problemas. Por sua vez, cabe ao paciente, participar ativamente desta busca; através da exposição e do confronto consigo mesmo, do reconhecimento e da admissão de dados até agora não aceitos ou camuflados, da disposição de se entregar inteiramente ao processo de busca de sua identidade real e do enfrentamento da responsabilidade, gradativamente alargada, por seus próprios atos e decisões. Sempre de forma ativa, participante e rumo à maturidade, confiante em si mesmo e no psicoterapeuta que o acompanha. 

"Torna-te quem tu és"

NIETZSCHE